Um evento que ficou na história.
Contexto
O ano era 1986, José Sarney era o presidente do Brasil e o país experimentava o Plano Cruzado, um período de grandes inflações e de políticas públicas desastrosas, sobretudo para o esporte. Era um momento bem difícil da economia nacional e a maioria das empresas cortava custos e tinha de lutar para sobreviver. O mundo vivia o terror de Chernobyl, todo mundo esperava pela passagem do cometa Halley e os brasileiros ainda choravam pela derrota da super seleção brasileira de futebol para a França na Copa do México.
O surf brasileiro já tinha certa projeção nacional, os circuitos profissionais e amadores formavam bons competidores, já havia o Realce, um programa semanal de surf na televisão e começavam a aparecer os primeiros ídolos do surfe nacional.
Uma semana épica!
No dia 6 de setembro de 1986, na praia da Joaquina, em Florianópolis, Santa Catarina, começava um campeonato mudaria para sempre a história da cidade e do surfe brasileiro: o Hang Loose Pro Contest.
A capital de Santa Catarina ainda era uma cidade pequena, quase bucólica, quando uma horda de surfistas invadiu a cidade para a realização da oitava etapa do circuito mundial da ASP - Association of Surfing Professionals.
Em 86 a entidade promovia um circuito mundial com 18 etapas pelo mundo, o norte-americano Tom Curren vinha liderando o circuito com quatro vitórias nas sete primeiras etapas e o Hang Loose Pro Contest aconteceu na praia da Joaquina, colocando o Brasil de volta no calendário do circuito mundial, dessa vez com a chancela da ASP, a entidade que passou a organizar o circuito mundial desde 1983.
o Hang Loose Pro Contest é considerado um evento histórico não só por ter colocado o Brasil de volta no mapa do surf mundial e por deixado um legado e um caminho aberto para os brasileiros que pretendiam seguir o sonho do título mundial, mas porque aconteceu com ondas realmente incríveis (o que era difícil no circuito daquela época), que surpreendeu gringos, brasileiros e a mídia especializada. Ondas grandes, perfeitas, verdinhas, quebrando perto de um costão de pedras com uma energia incrível. Se havia muita expectativa em relação a esse campeonato, o Hang Loose Pro Contest superou todas elas. E se havia aquele estigma de que no Brasil não dava onda, a Joaquina mostrou que todos estavam errados.
Como bem definiu o Reinaldo Dragão Andraus, jornalista e pesquisador da história do surfe, é até hoje considerado "o campeonato dos campeonatos" no Brasil, um evento que até hoje é lembrado e cultuado como um acontecimento que mudou (ou que pelo menos ajudou a mudar)os rumos do surf no Brasil.
Ainda rolaram sessões de freesurf na Guarda do Embaú, no Santinho, no Matadeiro e em alguns picos do norte e do sul de Florianópolis que embalam conversas de surfistas até hoje.
Por quê esse evento foi tão especial?
Primeiro porque ter uma etapa por aqui, ver nossos surfistas enfrentando (e vencendo) os maiores nomes do surf mundial, foi um acontecimento que mexeu com o sonho de muita gente e realmente ajudou a mudar os rumos do surf no país.
O outro ponto ficou por conta da perfeição das ondas da Joaquina, que deixaram todo mundo de boca aberta. O campeonato teve a sorte de acontecer durante um poderoso swell de leste. Um dia antes do evento começar, as condições estava terríveis, mas o dia 6 de setembro amanheceu sem um pingo d´água (ou de vento) fora do lugar. Ondas perfeitas, sol, swell consistente e os melhores surfistas do Brasil e do mundo se enfrentando em ondas lindas, verdinhas e tubulares. Não teve quem não pirou com as ondas desse evento. A Revista Fluir fez uma edição histórica na época, a organização do evento produziu um filme em VHS e Florianópolis ganhou fama mundial e virou febre nacional pela qualidade de suas ondas. Acreditem ou não. O fato é que o Hang Loose Pro Contest de 1986 foi um evento que literalmente fez a praia parar. Foi um sucesso para a mídia, para o público, para os competidores e, principalmente, pra Hang Loose, que arriscou tudo, marcou um golaço e se firmou como uma das maiores marcas do surf brasileiro.
Organização
A premiação do evento foi de 35 mil dólares e o evento foi bancado pelo empresário Alfio Lagnado, proprietário da Hang Loose e organizado pelo trio Roberto Perdigão, Flávio Boabaid e Arnaldo Spyer, que realizaram o evento na praia da Joaquina com grande competência. Surfistas como Tom Carrol e Mark Occhilupo elogiaram bastante o evento na época e deram declarações em que apontavam o Hang Loose Pro Contest o melhor evento de 1986.
A competição
O Hang Loose Pro Contest teve 155 surfistas brasileiros inscritos e participantes da Austrália, Estado Unidos, França, Japão e da África do Sul, contou com a participação de quatro campeões mundiais (Mark Richards, Tom Carrol, Shaun Tomson e Wayne Rabbit Bartholomew)e de grandes surfistas da época como Mark Occhilupo, Glen Winton, Damien Hardman e Hans Hedemann.
A praia estava lotada a tal ponto que um imenso engarrafamento se formou por toda a estrada de acesso a praia da Joaquina e parou o trânsito até a Lagoa da Conceição. O evento começou com o hino nacional e a presença do Governador do Estado na época, Espiridião Amin (que no último dia do evento só conseguiu chegar à praia de helicóptero). O público estimado na praia era de mais de 15.000 pessoas, o acesso na época era precário e o costão da Joaca virou uma arquibancada natural de frente para as ondas.
O catarinense David Husadel e o paulista Tinguinha Lima entraram direto para o evento principal como surfistas convidados da Hang Loose. Ricardo Tatuí (RJ), Dadá Figueiredo (RJ), Cézar Baltazar (RJ), Otaviano Taiú Bueno (SP), Rodolfo Lima (RJ), Fernando Bittencourt (RJ), Felipe Dantas (RN), Renato Phebo (RJ), Almir Salazar (SP), Paulinho do Tombo (SP) e Sérgio Noronha (RJ) chegaram ao evento principal pelas triagens, juntamente com David Eggers (USA), Simon Law (USA), Pierre Tostee, Robbie Page (AUS)e Matt Archbold (USA).
O melhor brasileiro na competição foi o carioca Sérgio Noronha, o Fedelho, que na época ainda competia como surfista amador. Sérgio Noronha competiu desde o primeiro dia, chegou ao evento pelas triagens e no evento principal derrotou nomes como Barton Lynch e Mith Thorson. Só perdeu para o caméão Dave Macaulay nas quartas de final. Com o resultado Sérgio Noronha anunciou a profissionalização e tem uma longa carreira no esporte.
As triagens aconteceram de sábado a taerça-feira, com baterias de quatro surfistas e ondas de 8 a 10 pés (o melhor swell do ano na ASP. Só brasileiros competiram nos dois primeiros rounds. Felipe Castejá, Fred D´Orey, Ricardo Toledo e o catarinense Waldemar "Bilo" Wetter foram os brasileiros que se destacaram nos primeiros dois dias de competição. Na segunda-feira se destacaram os brasileiros Cláudio Marroquim, Fred D´Orey, Fernando Bittencourt e Dodô de Mello. na terça-feira aconteceu a 3ª fase da triagem e os destaques ficaram por conta de Fernando Bittencourt, Robbie Page, Matt Archbold, Bilo Wetter, Saulo Lira, Pedro Muller, Simon Law e Ricardo Tatuí.
Na quarta-feira entraram na competição os Back 14 da ASP e os dois wildcards da Hang Loose (David Husadel e Tinguinha Lima).
Na quinta-feira entraram na água os Top 16 da ASP, já no evento principal. As ondas baixaram um pouco e o Alfio Lagnado cogitava uma possível pausa na competição.Quatro brasileiros avançaram na competição. Sérgio Noronha, Rodolfo Lima, Dadá Figueiredo e Tinguinha Lima (que competiu com o tímpano perfurado).
Tinguinha Lima acabou eliminado pelo havaiano Hans Hedemann, dadá Figueiredo foi derrotado por Glen Winton (AUS), Rodolfo Lima perdeu seu confronto para Mark Occhilupo (AUS) e o garoto amador Sérgio Noronha venceu o australiano Barton Lynch, que reclamou bastante do resultado e por fim o norte-americano David Eggers derrotou o favorito Tom Carrol.
No sábado Sérgio Noronha venceu seu confronto contra o australiano Mith Thorson na última onda
“Eu era apenas um amador dentre alguns que estavam lá e não esperava chegar tão longe”. “Eu havia competido no Waimea 5000 (em 1982 no Rio de Janeiro), pois meu pai já me incentivava naquela época, então já tinha corrido com alguns gringos, mas nada comparado ao que foi vivenciado em Floripa. As ondas realmente fizeram a diferença e a minha bateria com o Barton Lynch foi a mais disputada, venci por 3 a 2. Com o campeão do evento, Dave Macaulay, não tive chances, o cara tava inspirado e as ondas achavam ele”. “Eu viajei pro Sul sozinho e lá, por pura obra do destino, fiquei em companhia dos pro surfers de Cabo Frio, Miguel Kury e Gugu, numa casa alugada na Barra da Lagoa”. “Eu estava uma semana sem surfar, porque tinha cortado meu pé direito, o que me obrigou a usar botinhas de neoprene (usadas em fundo de coral pra não se cortar). Eu levava duas pranchas novas para o evento e nossos treinamentos foram intensos, acordando cedo pra correr e depois surfar na Joaca, que ficou realmente clássica. O equipamento estava 100% aprovado, uma 5´11 e uma 6’1 da Hotstick, shape do Victor Vasconcellos”.- Sérgio Noronha
Resultado
1º. Dave Macaulay (AUS)
2º. Mark Occhilupo (AUS)
3º. Shaun Tomson (AFS)
3º. Hans Hedemann (HAW)
5º. Sérgio Noronha (RJ)
5º. Merrick Davies (AUS)
5º. Glen Winton (AUS)
5º. Damien Hardman (AUS)
Semifinais
Dave Macaulay d. Hans Hedemann
Mark Occhilupo d. Shaun Tomson
Quartas-de-final
Hans Hedemann d. Damien Hardman
Dave Macaulay d. Sérgio Noronha
Mark Occhilupo d. Merrick Davies
Shaun Tomson d. Glen Winton
Palavras do Alfio, anos mais tarde, no blog do Dragão: "Na verdade esse evento foi uma irresponsabilidade, fizemos porque éramos jovens, arrojados, foi um loucura para os padrões da época. Quando tudo foi fechado e resolvemos fazer o campeonato, faltavam só três meses. Mas era a época do Plano Cruzado, as vendas estavam boas, estava tudo maravilhoso, a gente vivia numa ilusão louca. Então decidimos acelerar. Se tivesse dado errado teríamos comprometido totalmente o desenvolvimento da empresa e do surf brasileiro.""No final tudo deu certo, a equipe envolvida na realização do evento era de primeira: Flávio Boabaid, Mauro Levinbook, Renato Hickel, além do apoio do Governo do Estado, da Prefeitura de Florianópolis e lógico, do inesquecível Toló, representando toda raça da Joaca."
Bibliografia
Fotos do evento
Tá no Youtube:
Esse "resumão" do Hang Loose Pro Contest de 86 não está nem será finalizado. Se você participou, tem fotos, registros, correções, comentários ou contribuições aqui para essa lista dos grandes campeões do surfe gaúcho e quiser colaborar com o arquivo surfe, sua participação será sempre muito bem vinda.
Se gostar e quiser compartilhar esse conteúdo, uma onda linda e perfeita irá até você em um futuro bem próximo.
Comentários
Postar um comentário